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RESENHA

O Castelo Animado (Hauru No Ugoku Shiro,
Japão, 2004), de Hayao Miyazaki
Por: Hugo de
Lima - hugodelima@cinepoetica.com
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"Um filme para crianças".
É assim que o diretor japonês de animação Hayao Miyazaki
define qualquer obra que já tenha feito. Alguns fixariam
de outras formas, devido a quantidade de informação esmiuçada
em temas comuns ao nosso tempo, mais propagados no Japão,
contudo que não deixam de ser universais. Desde "Nausicaä
do Vale dos Ventos", Hayao mantém uma mão única para
seus filmes. |
A citação de "Nausicaä" nessa afirmação tem um bom
motivo: é seu primeiro filme. Conclui-se que o diretor nunca
perdeu, digamos, a magia para criar. "O Castelo Animado",
ou "Hauru No Ugoku Shiro" não é o ápice de seu trabalho
em riqueza de roteiro e análise de temas abordados, mas é sem
dúvida a película de maior detalhamento técnico que animação
tradicional já permitiu dentro dos estúdios do diretor, o Ghibli.
Seu filme anterior,
"Sen to Chihiro no Kamikakushi", ou como o Brasil
conheçe, "A Viagem de Chihiro", vencedor do Oscar
de Melhor Longa de Animação, permitiu pela primeira vez que
o mundo, de forma massiva, colocasse os olhos em seu trabalho,
fruto de 16 anos de evolução técnica naquilo que a indústria
de entretenimento do Japão sabe fazer melhor. Mas "Chihiro",
apesar dos 270 milhões de dólares arrecadados, não foi feito
para o mercado em si. Miyazaki está longe, até mesmo dentro
de sua própria nação, e mesmo com toda a pressão da crise da
Tokuma (holding do qual faz parte), de se juntar a turma de
Akira Toriyama, Naoko Takeuchi e Rumiko Takahashi, desenhistas
de mangás famosos para o público jovem que se rendem fácil aos
assuntos mercantilistas.

A feitiçeira real
Da mesma forma
que "Chihiro", "Nausicaä" também foi feito
assim, "Princesa Mononoke" também e "O Serviço
de Entregas da Kiki" também. Vemos aqui uma maré que é
bem difícil nos dias atuais, quando um autor se importa com
a qualidade técnica e informativa ao mesmo tempo, sem se entregar
por completo a um projeto feito pra vender. Há alguns anos,
ele tinha tudo para se aposentar: um bom dinheiro, uma obra
de excelência criativa, e uma doença que lhe tirava qualquer
possibilidade de voltar a rotina. Não tardou a lembrar-se do
que era, um diretor de "filmes para crianças", e é
assim provavelmente que deseja morrer.
"O Castelo
Animado" conta a história de Sophie, uma jovem de 18 anos
que é almadiçoada por uma bruxa à idade de anciã. Talvez este
fosse um dos mais duros castigos para a sociedade daquele mundo
fantástico (uma analogia com o nosso próprio tempo) - viver
como velha num local que não facilita a vida de quem envelheçe.
A cena da gigantesca escadaria do Palácio Real em que Sophie
deve subir é o auge da crítica do diretor. Mas também há a relação
de amor entre a "jovem" e o mago Howl, o lindo rapaz
a quem pede ajuda para desfazer o feitiço. Aqui vemos, mesmo
que mais retido ao puro romantismo, uma análise do sentimento
humano mais valorizado e degustado por escritores - o amor.
O amor entre um belo rapaz e uma velha de 90 anos.
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O "castelo que se move" |
"Castelo"
também é uma crítica à guerra. Em 2005, quando a obra foi lançada
mundialmente, era aniversário de 50 anos do fim da Segunda Guerra
e do lançamento da bomba atômica sobre o território japonês.
Miyazaki construiu o filme de uma forma em que a guerra parecesse
uma idéia horrível e sem sentido. Não há ganhos, só perdas -
o que deixa claro durante a trama. Hayao conduziu o roteiro
de um forma que não só apresentava cenas em movimento, mas fazia
aos espectadores odiar o que viam (ou pelo menos tentava). Isso,
apesar de magistral de um ponto de vista, pode ter ameaçado
o próprio filme, pois a apresentação da idéia em certos momentos
até pareceu estar em paralelo com a história de Sophie.
Porém, há muito
mais em "Castelo" do que um erro de roteiro possa
comprometer. As citações (indiretas) ao nosso tempo não param
por aí. O rei que comandava um lado do conflito em muito pareceu
um governante intransigente e popular, alguém que se lembra
daqui mesmo, pelas bandas do ocidente... Também houve a quebra
da relação professor x aluno tão valorizada no oriente (quando
Howl diz "não" ao chamado de sua mestra, a feitiçeira
real).

vista do porto
Mas então, alguém
pode se perguntar onde está o "filme para crianças"
nisso tudo? Está exatamente na forma de contar, nas cores da
pintura, nos momentos de piada (que não são poucos) e nos personagens
mágicos que permeiam a história, como o "foguinho"
Cáucifer, o espantalho Cabeça-de-Nabo e o aluno do mago Howl,
o pequeno Marko. O que Hayao fez aqui foi encontrar uma forma
de criticar e fazer filmes com elementos infantis num funcionamento
sublime aos dois sentidos. Algo em que ele é mestre há muito
tempo.
Por fim, esta
não é só a história de Sophie e Howl, é um conto com amostras
profundas de uma realidade que reprime e condena, que exclui
sem piedade, de forma individualista e dolorosa. O final romântico
e feliz é certamente o desejo do diretor aos problemas do mundo,
tão antigos e burros. Mesmo que, na minha opinião, não seja
o melhor filme de Hayao, "O castelo Animado" não deixa
seu papel de fotografia da história humana.


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