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RESENHA

"Cinema, Aspirinas e Urubus", de
Marcelo Gomes, Brasil, 2005Por:
Aluizio Moreira Filho - aluiziofilho@cinepoetica.com

"Cinema,
Aspirinas e Urubus", primeiro longa-metragem do pernambucano
Marcelo Gomes, demorou sete anos para ser finalizado. Essa duração
bem acima da média reflete os entraves do nosso cinema. A sétima
arte em Pernambuco convive com a falta de incentivo, com a ausência
de escolas de cinema e (felizmente!) com a perseverança de jovens
diretores como a do próprio Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Camilo
Cavalcante, entre outros. A demora na produção cinematográfica
no entanto, pode se tornar um ponto positivo se propiciar um
envolvimento tal do diretor, capaz de ampliar seu domínio sobre
a obra. E isso certamente aconteceu com a estréia de Marcelo.
"Cinema, Aspirinas e Urubus" dispensa as grandes pretensões
- tão comuns na estréia de diretores - assumindo uma simplicidade
ímpar tanto na estética como no conteúdo. Afinal, não há nada
de original num filme que se propõe ser um roadmovie
no sertão nordestino. Enfim, é uma película barata, sem grandes
mirabolismos técnicos, mas que toca em temas importantes.
Cinema, Aspirinas e Urubus é
basicamente sobre a relação do alemão Johann e do sertanejo
Ranulpho com os lugares em que nasceram, com eles mesmos
durante a viagem pelo sertão nordestino e o desenrolar
dessa amizade. Partindo dessa premissa, o filme entra
em vários territórios como o da identidade cultural, da
tolerância, da solidariedade e da miséria do povo sertanejo.
Todos eles preenchem o filme sem grandes questionamentos,
já que tudo funciona sutilmente. |
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Johann é o representante
do remédio Aspirina no Brasil. Sua tarefa é cruzar o país com
uma caminhonete exibindo filmes-comerciais e vendendo o remédio.
Esse trabalho foi a única maneira de fugir da Alemanha nazista
em guerra. Já Ranulpho é um sertanejo que decidiu ganhar a vida
no Rio de Janeiro após uma crise existencial. Enquanto ele despreza
a terra que nasceu e lhe trouxe sofrimento, o alemão exprime
um ar de inconformidade com o rumo de sua nação. A identidade
cultural dos protagonistas cresce durante o filme na medida
que a relação entre ambos se desenrola, assim como seus ideais
e suas visões de mundo.
Para nossa alegria,
"Cinema, Aspirinas e Urubus" anda na contramão do
sertão nordestino pintado pela retomada do cinema brasileiro.
Diferentemente de filmes como "Central de Brasil"
(Walter Salles), onde a seca é bela e estilizada, no longa de
Marcelo Gomes ela é quente, sofrida e brilhosa. A direção de
arte utilizou apenas o essencial, dispensando supérfluos. Aliás,
o que não existe no sertão é supérfluos. Todos objetos em cena
têm sua utilidade e função real na vida dos personagens. Já
a fotografia, tendeu a se aproximar dos tons monocromáticos
dos clássicos do Cinema Novo como "Deus e o Diabo na Terra
do Sol" (Glauber Rocha). E por falar em Glauber Rocha,
que defendia fervorosamente o cinema popular, "Cinema,
Aspirinas e Urubus" consegue fazer uma ponte entre o cinema
de arte e o cinema popular.
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Essa ponte parte do estilo da narrativa
inspirado em fábulas e deságua na utilização de não-atores
(os próprios moradores das cidades que serviram de locação).
Enquanto Peter Ketnath (o alemão Johann) e João Miguel
(o sertanejo Ranulpho) exibem uma ótima performance diante
da tela, as encenações dos não-atores são tão espontâneas
que diversas vezes parecem "artificiais". Essa
experiência de trabalhar em locações esquecidas no meio
sertão ofereceu uma coincidência curiosa com o roteiro.
Os moradores da cidade de Picote, onde foi filmada a cena
da projeção do filme-comercial em praça pública, também
não sabiam o que era cinema. Mais curioso ainda é a revelação
feita no final de "Cinema, Aspirinas e Urubus"
de que o filme é baseado nas histórias contadas por Ranulpho
Gomes (tio-avô do diretor Marcelo Gomes), que exercia
o papel de vendedor de aspirinas na vida real. Esse último
diálogo com a própria experiência familiar do diretor,
demonstra o quão rico o filme é. E certamente, essa riqueza
advém do domínio que Marcelo Gomes possui de seu primeiro
longa. |


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