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RESENHA

“O Baile”,
de Ettore Scola, Itália/França, 1982
Por: Hugo
de Lima - hugodelima@cinepoetica.com
Um filme singular.
Uma obra do Cinema Mudo fora de seu tempo. Uma opção
de formato ao invés de algo adequado pela falta de tecnologia
como a do início da Era do Cinematógrafo. “O
Baile” (1982), do diretor italiano Ettore Scola, possui
muito mais que uma adaptação da linguagem teatral
para o cinema. É um filme que dispensa diálogos,
mas que possui narrativa a partir de outros níveis de
entendimento e especificidades de arte, como os gestos. Tem,
acima de tudo, o uso da câmera e das facetas interpretativas
do elenco como fonte principal de transmissão de sua
mensagem.
O diretor fez
escolha a um cinema usado por Charles Chaplin, Buster Keaton,
D. W. Griffith e Edward Porter quando se tinha as primeiras
tentativas de construção de uma linguagem própria
da sétima arte (até então, considerada
apenas como uma nova técnica). Chamada de pantonímia,
estes diretores usaram ao máximo o que a construção
gestual permitia. A primeira idéia que se tinha era o
de usar o cinema como adaptação de obras clássicas
de romantistas e realistas alemães, ingleses e franceses.
Isso a aproximava muito do teatro; e o teatro era usado constantemente
para se construir os primeiros roteiros. Chaplin e o russo Sergei
Eisenstein foram dois dos primeiros a iniciar a queda do paradigma
de direção de arte e cenários como era
feito para os espetáculos ao vivo. Scola faz o reverso.
Tenta aproximar seu filme do teatro e a primeira escolha mais
evidente é o uso de apenas uma locação
durante todo o longa.
Os cento e vinte
minutos de “O Baile” falam do século XX.
Dos grandes acontecimentos, ou os mais importantes, segundo
o diretor, até o momento de sua gênese. É
interessante notar que existe um olhar universal na intenção
da obra, uma visão voltada para os conflitos e diferenças
políticas, sociais, culturais e existenciais no mundo,
apesar do filme retratar especialmente da história francesa.
Há períodos bastante claros. Ele inicia nos anos
70, em plena volta do facismo a Europa, principalmente na Itália.
A França passava por manifestações estudantis
(em 68) impulsionadas pela crise conseqüente da ditadura
de De Gaulle. Um grande salão presencia desde o movimento
da Frente Popular de 1936 até uma análise dos
anos 70, quando retorna, já no fim, à cena inicial.
Um interessante
momento do roteiro mostra a saída das tropas alemães
da França, depois do cerco à Paris. Os personagens,
caricatos, montam uma situação em que um alemão
se “diverte” no salão as custas do sofrimento
daquele povo. Ele é ajudado por um francês que
no momento em que há o fim da Segunda Guerra, é
desprezado e considerado traidor. O diretor utiliza bem o conceito
antigo de comédia italiana no cinema. A cena acaba numa
dança em que a bandeira da França é partilhada
por todos. Os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade
são aqui expostos, como uma base de esperança
para o mundo. Exceto para o traidor...
Ettore Scola pertence
a uma época do cinema italiano pós-neo-realista.
Uma época vivida por grandes mestres como Federico Fellini
(“A Doce Vida”, “Satirycon”...), Pier
Paolo Pasolini (“Teorema”), Luchino Visconti (Rocco
e seus irmãos) e Michelangelo Antonioni (Blow-up). Essa
fase é marcada pela intensificação da oposição
política aos governos, a sociedade e ao próprio
jeito de ser humano; um crítica aos complexos psicológicos
do homem. Pasolini foi a grande frente desse pensamento e Ettore
Scola torna-se essa principal influência logo após
sua morte, em 1975.
Em outras obras do diretor,
vemos uma unidade quanto a questão de se fazer e contar
histórias complexas em volta de apenas um núcleo,
um cenário, como é o caso de “A família”
(1986) e mais recentemente de “O Jantar” (1998).
“O Baile” não está ligado a nenhuma
estética fieldiana. Não vemos aqui, por exemplo,
o herói, sua jornada, seus facilitadores, seus antagonistas,
etc. A sobriedade da montagem impressiona, principalmente enquanto
mantém uma única estrutura de cortes durante todo
o filme, sem na prática nenhum efeito de transição,
exceto o que ele usa para iniciar uma nova fase ou década
na estória e pouquíssimos que nem se notam. Apesar
disso, é no roteiro que reside a relíquia maior.
Todo o planejamento narrativo brilha durante a película.
Uma boa chance de se ver algo diferente do que acostumamos ditar
a um filme “bem produzido”.

http://www.terra.com.br/cinema/drama/jantar.htm,
visitado em 14/06/2006.
http://www.webcine.com.br/historia2.htm,
visitado em 14/06/2006.


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