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O diretor de A Rosa Púrpura volta em um filme sobre relações, sorte e destino. Ponto Final - Match Point, de Woody Allen (Match Point, Inglaterra/EUA/Luxemburgo, 2005).

Por: Hugo de Lima - hugodelima@cinepoetica.com


Scarllet Johanson

Woody Allen não é um diretor fácil de se entender. Seus filmes são construídos em volta de situações bem comuns ou mesmo as mais inusitadas e impossíveis. O motivo fica bem claro perto da segunda metade de cada película. Longe de fazer um filme apenas por fazê-lo, estes motivos vão da discussão existencial da vida, dos relacionamentos, dos diálogos profundos, das artes em geral (do erudito, principalmente) até a discussão do abstrato em adaptações modernas de obras clássicas. Allen é capaz de transportar grandes histórias da humanidade para o nosso tempo com tanta facilidade quanto fez em "Ponto Final - Match Point".

Para alguns este filme não passa de um drama com pitadas mais jocosas. Numa visão bem grosseira, é a história de um triângulo amoroso entre um ex-jogador de tênis que ascendeu socialmente (Jonathan Rhys-Meyers), a esposa que lhe ajudou a subir nessa escala (Emily Mortimer) e a ex-namorada de seu cunhado (Scarlett Johansson). O início do filme nos dá um ponto de referência qualitativa do que o diretor vai apresentar. É sublime como ele faz uma simples bola de tênis sendo jogada de um lado a outro do campo do jogo se tornar uma questão filosófica sobre sorte. E mais, o espectador que prestar atenção neste, digamos, poema do prólogo, vai se surpreender como o roteiro trabalha mais tarde num retorno representativo a esta cena. Incrível. É algo tão bom, em uma visão lispectoriana, quanto ter assistido a analogia da humanidade e do rebanho das ovelhas em "Tempos Modernos", de Charles Chaplin.

Woody Alllen acomodou em Match Point a tragédia de Édipo, de Sófocles. Ele foi predestinado a matar o seu pai e casar-se com sua mãe.

   

O "casal" do filme.

Mas Édipo não acreditava que isso aconteceria, pois jamais faria um ou outro ato. No entanto, o destino cuidou com que estivesse errado e, na construção da tragédia, Sófocles fez com que Édipo cumprisse com os "planos divinos", mesmo sem saber que os fazia. No início de "Édipo Rei", Creonte (o oráculo), nos fala algo que se aplica ao andamento de "Match Point": "acredito que mesmo as coisas desagradáveis, se delas nos resulta algum bem, tomam-se uma felicidade."

Um destaque vai para a cena em que o policial descobre tudo no final. Ele vê toda a trama em seus sonhos. O roteiro quase brilha nesse momento, pois o diretor fez com que uma única cena, ao mesmo tempo, representasse o pensamento de duas personagens. Anteriormente, alguém (não digo quem para não precipitar o filme) tinha acabado de sofrer de uma dor de consciência, resultando na mesma cena do sonho, na qual este alguém fala com seus temores e pesadelos.

Características marcantes do diretor não estão neste filme, é verdade. Woody Allen não aparece em nenhum momento e não deixa transparecer tanto o seu eu no protagonista a ponto de torná-lo apenas um espelho seu. Mas isso é compensado pela trama e pelos personagens. Jonathan Rhys-Meyers, por sinal, está muito bem no papel do ex-tenista que se torna alto executivo de uma empresa. Nos momentos em que tem de mentir para as duas muheres que mantém, mostra-se convincente e dono de uma força interpretativa digna de um ator experientem, até porque consegue fugir, em parte, da cruz de ser uma "cara woodyana".

Woody Allen transmite no diálogo uma de suas chaves de sucesso. Chegou a fazer filmes em que o expectador não possuía nem um descanso do balde de informações trazidas pela tela através das falas de seus atores (nem mesmo uma imagem ao fundo para ser "deslumbrada por deslumbrar"). Ele consegue construir num único plano, um tipo de teatro-cinema, já que aproxima alguns pontos distintos nas duas formas de diálogo. Algumas pessoas poderiam olhar para esses momentos das maneiras mais banais, até porque outros diretores já os filmaram (de forma que parecem clichês). Mas ao invés de torná-las partes de ligação da trama, Allen constrói um ríquissimo enraizado e aproveita todos os momentos para desfrutar com o público de suas opiniões e ânsias. Isso só corrobora para uma cenografia cheia de momentos individualistas que transformam os encenantes em complexos psicológicos que pedem para serem trabalhados.


Jonathan Rhys-Meyers (a direita) e seu "cunhado".

Outro ponto interessante é a cronologia da história. É uma mania do cineasta de construir não um simples fato, mas quase um pedaço de vida dentro de míseras duas horas. E o faz com brilhantismo. É como se um romance inteiro fosse resumido de forma coerente e prazerosa. Isso também acaba se tornando uma válvula de escape para as miralobolantes intervenções do diretor, apesar de não interferir na qualidade do andamento.

   

É difícil fazer uma análise prévia das intenções do papel. Sua personagem vai sendo construída e revelada a cada momento; ponto positvo para ele e para o roteiro que lhe permite tal crescimento.

Em uma comparação estética com seus filmes anteriores, "Ponto Final" pode ser considerado um das obras mais "comerciais" que o diretor já fez. Em "Igual a tudo na vida", de 2003, e "Celebridade", de 1998, Allen teve outras aproximações à indústria cinematográfica colocando em destaque "atores-eventos" como Jason Biggs (estereotipado pelo besteiról American Pie) e Leonardo DiCaprio (na época, "aclamado" por Titanic). Mas os três filmes, apesar disso, apresentam histórias centradas nos mesmos objetivos que são encontrados em outras grandes fitas suas. Ousadia a parte, Woody deu em "Ponto Final" mais um banho nas raposas que tentam enquadrá-lo em Hollywood.

http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/personalidades/diretores/woody-allen/corpo.asp

http://www2.uol.com.br/cultvox/livros_gratis/edipo_rei.pdf


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