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RESENHA

"O Segredo de Brokeback Mountain",
de Ang Lee, EUA, 2005Por: Aluizio
Moreira Filho - aluiziofilho@cinepoetica.com
Na passagem do mundo moderno para o pós-moderno,
a lógica da dicotomia foi desconstruida. A sociedade contemporânea
não estaria mais dividida entre duas grandes classes fundamentais
como até então era na visão marxista. Operários e burgueses
dariam lugar ao conjunto de tribos quem compõe a sociedade
pós-moderna, dentre elas os homossexuais. Nietzsche inclusive,
foi um dos primeiros a romper com a relação dicotômica
ao ultrapassar o binômio bem/mal. Se o aniquilamento do
pensamento dicotômico e o surgimento do pensamento múltiplo
são fatos no plano das ciências sociais, a nossa cultura
preserva ainda a velha lógica. Por isso, resumir O
Segredo de Brokeback Mountain de Ang Lee com um
simples ousado não seria nenhum arrojo. A
homossexualidade tratada nesse roteiro baseado no conto
de Annie Proulx, está à frente do pensamento comum. Prova
disso é que a maioria dos espectadores vai encarar os
personagens Del Mar e Jack Twist pela lógica da dicotomia.
Eles são gays. Pronto! diria os clássicos.
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Mas a verdade
é que além de Ang Lee inverter os códigos do faroeste, compôs
duas personagens altamente antagônicas à caricatura homossexual
de filmes passados. O casal protagonista são dois homens durões,
que mantém a rédea da família, mas que ao mesmo tempo se vêem
pressionados pelo modelo de família estabelecido na sociedade,
o que impede a união.

Os dois vaqueiros
Esse modelo, inclusive,
foi abalado na Inglaterra no fim do ano passado quando se tornou
legal a união gay no país. O cantor Elton John por exemplo,
foi um dos primeiros a se casar. Já nos EUA, enquanto a Igreja
e o Estado se aliam a fim de proibir esta legalização, O
Segredo de Brokeback Mountain ganha título de manifesto
social e recebe elogios da crítica e prêmios importantes como
no Festival de Veneza, o Globo de Ouro e o Oscar.
Fazendo uma relação
com o nosso país, percebemos o quanto nossa mentalidade é atrasada.
A autora da novela global América ao tratar do homossexualismo
entre Zeca e Júnior se mostrou incapaz de ousar ao não deixar
ir ao ar a cena de beijo gay. Isso faz do filme de Ang Lee um
tabu no Brasil, sobretudo porque a frase o filme dos cowboys
gays já virou lugar-comum na mídia brasileira, dispensando
o real contexto em que o filme está inserido. Aliás, a ousadia
desse diretor é tanta que poucas cenas fortes compõem o filme.
Digo ousadia porque é extremamente fácil criar um filme-para-chocar-a-sociedade.
Não, Brokeback Mountain não é um Ken Park.
Não só a temática
provocativa faz de O Segredo de Brokeback Mountain
um filme difícil de se ver. O público comum, acostumado com
cortes e narrativas rápidas, típicas de produções hollywoodianas,
se decepcionará com o ritmo lento e as reviravoltas do casal.
Reviravoltas que chegam a fazer homenagens a Shakespeare, sobretudo
pelo desfecho trágico do filme. Além disso, o longa-metragem
de Ang Lee dispensa a fotografia de cartão postal e insiste
na canção tocante de Gustavo Santaolla, reforçando a alcunha
de independente, apesar de não sê-lo.



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