página um Índice desta edição discussões todas as edições expediente a revista
Clique par ir a edição atual
  MATÉRIA

"Que se faça a luz!", e Bergman nasceu.

Por: Hugo de Lima - hugodelima@cinepoetica.com

Escrever e montar o homem. O que daria significado mais singelo à obra de Ingmar Bergman? Numa fotografia barroca, do escuro faz surgir a quebra da certeza, da razão, e desenvolve a pergunta imortal da humanidade – quem é, ou, o que significa Deus? O dramaturgo sueco, que deixou o cinema há alguns anos, possui uma das mais vastas obras de referência sobre a psicologia humana nas grandes telas, principalmente um dos mais belos olhares sobre a luz numa fotografia. E mesmo deixando de lado todo o complexo técnico que esse assunto nos renderia, ainda sobra a coexistência deste elemento como parte básica de sua mensagem, como algo indispensável à expressão de suas cenas, como inerência de suas dúvidas.

Desvendando Bergman.

Um dia parei na locadora e decidi me desvencilhar da área de lançamentos. Foi então que, ao parar na frente da estante de clássicos, descobri uma coleção de filmes em preto e branco de um diretor sueco. Jamais tinha ouvido falar do seu nome, apesar de alguém ter comentado comigo sobre o “Morangos Silvestres”, que levei. Era uma época menos complicada, ainda não tinha descoberto o outro olhar que o cinema permite. Era escravo do mocinho e do bandido americano. Foi então que assisti Ingmar Bergman. E descobri o cinema.
 

Ernest Ingmar Bergman nasceu na Suécia, precisamente em Uppsala, aos catorze dias de julho de 1918. Seu pai era um pastor luterano que o criou de forma rígida, conforme costumes antigos. Muito jovem, entrou para o teatro e logo começou a escrever e dirigir peças. Além da cultura herdada de seu povo, Bergman leu a maioria dos grandes clássicos de Literatura, o que influenciou a qualidade de suas narrativas. Também estudava obras importantes do cinema, principalmente as do expressionista Friederich Wilhelm Murnau e a do sueco Victor Sjöström (mais tarde, protagonista de “Morangos Silvestres”). Aos vinte e sete anos estréia no cinema com o filme “Kris” (“Crise”, de 1945), ainda com muita influência do teatro. Ele conta a história de uma jovem disputada pelas mães adotiva e biológica, num clima pessimista.

A chegada de Bergman à direção de cinema impulsionou um grande salto para a sétima arte em seu país, principalmente depois da exportação de diretores brilhantes para Hollywood. A maioria de seus filmes trabalhou temas como a morte, a dualidade entre o homem e o divino, a razão do estar no mundo e a análise da fé em Deus e no homem como possível resposta para isso, destacando-se a Trilogia do Silêncio (“Através de um Espelho”, “Luz do Inverno” e “O Silêncio”), “A Fonte da Donzela” e as obras-primas “O Sétimo Selo”, “A Hora do Lobo”, “Persona” e “Gritos e Sussurros” (os quais alguns comentarei mais a frente). Os anos 1950 e 1960 foram os mais produtivos da carreira. Nos anos 1970 dedica-se a obras ainda mais intimistas e, finalmente, em 1982, encerra sua carreira de diretor com o belíssimo “Fanny e Alexandre”, passando a uma nova fase, as das produções de TV. Só em 2003 lança mais um filme, “Cenas de um Casamento II”.

 


Seus filmes.

A obra bergmaniana é muito complicada de se analisar. É quase um mar cheio de significados que são deslumbrados através de um apuro técnico singular. Bergman sabia fazer quase tudo, o que era pouco comum na época. Ele se ocupava na Montagem e no acabamento e sempre teve um senso muito crítico para a fotografia. Quando pôde, procurou trabalhar com a mesma equipe, e até com os mesmo atores. Por sinal, ele era um excelente diretor de atores, frutos de mais de uma década dedicada ao teatro.

Um bom destaque e uma característica técnica presente em suas películas é o trabalho com a luz. É inegável que Bergman se tornou um poeta dos tons densos, das milimétricas escolhas de luminosidade dos cenários. Em “A Hora do Lobo” vemos uma cena com uma intenção quase apocalíptica, na qual suas personagens escondem-se sobre a luz de uma única janela cravada num corredor adjacente à sala em que filmaram. É quase um quadro do período barroco, numa mistura das obras “Filósofo Meditando” (1633), de Rembrandt, e “A Ceia em Emaús” (1606), de Caravaggio.

Em “Morangos Silvestres”, de 1957, vemos uma das mais elogiadas atuações do cinema, a do ator Victor Sjöström e uma obra-prima do diretor. O filme é uma referência para a fotografia em preto e branco, com cenas que se tornaram antológicas. Temos a história de um pai (Victor) que percorre suas lembranças e seus medos através de uma viagem de carro, acompanhado de sua nora. Pelo caminho ele encontra três jovens, que muito alegres quebram seu rosto fechado de preocupações. É neste carro que o velho reflete sua vida, uma história de mesquinharias que o levaram a ser um ancião ranzinza e amargo. O cano de escape é esta nora, que possui uma imagem pré-estabelecida do sogro (criada pelo filho dele), mas que ao longo da viagem descobre não ser tão verdadeira. Ele se arrepende de seus feitos através de visões do passado (algo que Bergman traduz como um retorno ao zero, às suas raízes, ao início de tudo, quando não havia os problemas).

A propósito de outros grandes filmes, como “Viver”, de Akira Kurosawa, esta obra é um complexo estudo sobre a apreensão da velhice e o conseqüente medo da morte; a fé do homem em busca de uma razão para continuar. Ingmar se torna um prosador barroco e mostra no desenrolar do roteiro cenas muito densas e bonitas. Destaque para quando o protagonista vê seu próprio caixão, numa rua deserta, com sol forte e sombras evidentes.

Em “O Sétimo Selo”, filmado um ano antes, o diretor nos apresenta estória ambientada nas Cruzadas européias, quase como uma fantasia. O filme começa com uma personagem que materializa a Morte se aproximando de um cavaleiro nobre para levá-lo à “eternidade”. O cavaleiro, então, faz uma proposta à Morte: que os dois joguem, antes, uma partida de xadrez. Ao final, ela teria seu espírito para levá-lo ao outro mundo. Paralelamente, vemos uma família de aldeões, flagelados, viajando pelos bosques com a culpa da Peste Negra nas costas. Naquela época, existia a crença que essa doença era um castigo divino aos pecadores. Neste filme vemos um diálogo com a morte. Sem a intenção de concluir verdades absolutas, Bergman discute o polêmico tema de uma forma incomum, quase surreal. Algo que lembra muito seletas cenas do cinema alemão dos anos 1920.

Num certo momento, há o encontro das duas tramas. Todos passam a viajar juntos, mas quando o aldeão percebe que o nobre estaria “amaldiçoado”, foge com sua família. Ele vê a morte jogando com o cavaleiro, algo que o impressiona muito, e que na verdade significa a Peste rondando-o. Por este momento ocorre a morte de uma personagem e, magistralmente, Bergman capta, sem querer, a luz do sol saindo de trás de uma nuvem bem no momento que o ator se põe morto. O cinema bergmaniano tem aqui, mesmo que por um acaso do destino, uma de suas cenas mais expressivas.


Cenas de "O Sétimo Selo" e "A Fonte da Donzela".

Com o mesmo tema de “O Sétimo Selo”, o diretor filmou “A Fonte da Donzela”, em 1960, e contou com uma das melhores interpretações de seus elencos, encabeçado por Max Von Sydow (o mesmo que fez o nobre cavaleiro no “Selo”). Estamos num tempo onde a Europa era dividida pela “guerra civil” entre cristãos e pagãos. Um senhor de boa família (Von Sydow) pede para sua filha levar velas à Igreja, antes do horário da missa. Só que no caminho ela se encontra com três camponeses (dois homens e um menino) que a assassinam. Passado algum tempo, na casa do senhor, chegam esses mesmos três camponeses que pedem para serem hospedados. Nenhum dos dois lados sabe da ligação que têm com a menina morta. O roteiro trabalhou de forma carregada com temas morais do homem.

Em 1972, Ingmar lança seu primeiro filme em cores, “Gritos e Sussurros”, que foi indicado a cinco Oscars, vencedor do de Melhor Fotografia. E não é para menos pois ela parece falar. Criada por Sven Nkvist, o mesmo diretor fotográfico dos filmes já citados, as combinações de vermelho utilizadas parecem manchar a tela com sangue. Ele pintou as paredes do cenário de rubro, e de novo produziu uma visão densa e desconfortante e, ao mesmo tempo, fiel à idéia da história.

Somos apresentados a quatro mulheres que usufruiram de um passado de alegrias. O hoje, porém, é mórbido. São três irmãs e uma governanta. Uma das irmãs, Agnes, está prestes a morrer e recebe os cuidados das outras duas. Quando isso ocorre, as outras três passam a ter visões que delatam seus defeitos, seus pontos fracos, seus gestos mesquinhos. É incrível como o diretor consegue mais uma cativante interpretação das atrizes Harriet Andersson (Agnes), Ingrid Thulin (Karin) e Liv Ullmann (Maria).

O cinema de autor

Um conceito introduzido pelos vanguardistas franceses dos anos 50 e 60, o cinema de autor, diz dos diretores que possuem em suas obras um aparente fio condutor que as tornam inquestionáveis quanto sua origem. Filmografias que apresentam temas constantes. No caso desses mesmos vanguardistas, temas como o conflito do homem, a quebra das relações morais, o singelo, a luz natural.

A questão do autor no cinema foi referida principalmente por François Truffaut, Claude Chabrol e Jean-Luc Goddard. Este último, responsável pela consolidação da Nouvelle Vague, em uma entrevista à revista BRAVO! de outubro de 2002, nega sua importância artística e fala sobre o final das revoluções dessa época. Diz que hoje não se sente mais autor, e sim um realizador de obras. Talvez Goddard se refira ao siginificado da palavra autor, que identifica antes de tudo um criador, um inventor de novas idéias.
 

É possível enquadrar os filmes de Bergman, neste contexto. Como citei na introdução, o diretor sueco trabalha os fatores psicológicos do homem em suas obras. E há originalidade em cada um de seus longas, por parte no que diz respeito à técnica, que ajuda o diretor a contar histórias através de “cinema puro”, mas principalmente pelo esmero temático.

Talvez o cinema de autor tenha morrido. Talvez Goddard tenha razão em dizer que não há mais criatividade nos “autores em demasia” de hoje. Ingmar Bergman, assim como muitos de seu tempo, a exemplo de Glauber Rocha, Nelson Pereira e Paolo Pasolini, desenvolveu filmes singulares, obras que são um outro olhar para o cinema. Hoje vivemos o advento do digital, que abre uma nova vertente. Só talvez, se alguém descobrir como se usa essa tecnologia da forma que lhe é característica, tenhamos novos autores enfim.


Cenas de "Através de um Espelho"


Cinema Acossado. Revista BRAVO!. Editora D'avila. Outubro de 2002.


www.mnemocine.com.br/oficina/bergmanmonica.htm, visitado em maio de 2006.
www.ufscar.br/~cinemais/artosetimo.html, visitado em maio de 2006.
www.cinemanet.com.br/bergman.asp, visitado em maio de 2006.


O Sétimo Selo, de 1956; Morangos Silvestres, de 1957; A Fonte da Donzela, de 1960; Através de um Espelho, de 1961; Luz do Inverno, de 1962; e Gritos e Sussuros, de 1973. De Ingman Bergman.


no Fórum da Revista ou na Lista de Discussão


Revista Cinepoética - Projeto Especial do Boivoador.com - Todas as imagens contidas neste site são meramente ilustrativas e
possuem direitos reservados de seus respectivos autores e representantes legais. Conteúdo sobre cinema.
www.cinemadepoesia.com - www.cinepoetica.com - www.boivoador.com