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ARTIGO

Cinema, Música e John Williams

Por: Aluizio Moreira Filho - aluiziofilho@cinepoetica.com

Ao contrário da Fotografia e da Direção de arte, a trilha sonora nem sempre foi considerada um elemento importante na composição de um filme. Compositores de música para o cinema só ganharam notoriedade a partir da década de 30. Surgiram, nessa época, grandes músicos como o austríaco Max Steiner (King Kong) e o russo Dimitri Tiomkim (Matar Ou Morrer). A princípio, compor para a sétima arte era considerado um trabalho menor, mas o sucesso e o bom salário mudaram essa visão. Na década de 50 os estúdios de Hollywood já possuíam orquestras fixas que não deviam nada às melhores filarmônicas do mundo. Compor para o cinema tornara-se financeiramente compensador, apesar do preconceito de alguns conversadores persistirem até hoje.

No entanto, a tradição de se usar música erudita como melodia para o cinema não é exclusividade dessa época. Ao contrário do que muitos pensam, o cinema mudo não era uma experiência totalmente em silêncio. Muitos filmes mudos exibidos em teatros eram acompanhados com músicas de fundo tocadas por algum músico ou orquestra ao vivo. Quando se tocava determinado acorde, por exemplo, sabíamos que o perigo estava próximo. E assim, a combinação de trilha sonora e imagem em movimento foi amadurecendo até a chegada dos filmes realmente sonoros.

O mais curioso porém, é que mesmo com o advento da sonoridade alguns diretores hesitaram em utilizar a nova tecnologia. Se dependesse do desejo de Alfred Hitchcock, por exemplo, a lendária cena do chuveiro em Psicose seria totalmente silenciosa. Mas será que se assim o fosse, a cena teria o mesmo impacto em nós? Ou melhor, será que só sentimos pavor por causa daquele som agudo dos violinos? Estas perguntas nos geram várias outras: qual é a real função da música no cinema? Que sensações ela pode provocar? Ela comunica alguma informação? Comunica algum sentimento? Como? De que forma funciona esse processo cognitivo de relação imagem-música?

Deixando esses questionamentos para um momento oportuno, posso adiantar que as trilhas dos filmes nos dias de hoje se revelam muito mais complexas do que as dos filmes na década de 30. Se antes exprimir idéias de suspense, alegria ou perigo era o bastante, hoje ficou demasiadamente vago. As cenas precisam de alma e consistência, extrapolar sentimentos e refletir subjetivamente o cenário, o humor dos personagens, a carga sentimental da cena, tudo ao mesmo tempo.

   
John Willians

Com toda essa importância, muitos diretores não abrem mão de contar sempre com o mesmo compositor em seus filmes. Frederico Fellini e Nino Rota, Sergio Leone e Ennio Morricone, Steven Spielberg e John Williams. Todos parceiros inseparáveis. Nino, ao compor para o filme "Amarcord", acabou nos proporcionando um tema que até hoje é considerado a tradução melódica do que é a mágia do cinema. O italiano Ennio Morricone por sua vez, realizou temas brilhantes para os filmes “western spaghetti” de Leone. Já Williams e Spielberg selaram parceria em sete filmes, todos premiadíssimos, tanto pela música como pela direção.

John Williams

John Williams é um dos compositores responsáveis por esse ápice da música erudita no cinema. Seus temas campeiam no nosso imaginário e foram essenciais para marcar, de fato, a identidade de diversos filmes. Você já imaginou "Tubarão" sem aquele tema sinistro de dois acordes? E a abertura de "Star Wars" sem aquela marcha épica que mistura elementos de ficção científica com as músicas dos filmes de Errol Flynn? E a seqüência de cinco notas que marcou o encontro de humanos com seres de outro planeta em "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"?

Certamente outras dezenas de títulos não teriam a mesma dimensão sem a obra de John Williams. Posso citar ainda as aventuras de "Indiana Jones", "Superman" e os recentes "Harry Potter e a Pedra Filosofal", "Munique" e "Memórias de Uma Gueixa", os dois últimos indicados ao Oscar deste ano. Na mesma categoria? Sim, inclusive essa é a terceira vez que o compositor compete consigo mesmo. A primeira vez que isso ocorreu foi em 1978, onde o músico foi duplamente indicado pela trilha de "Contatos Imediatos de Terceiro Grau" e pelo primeiro filme de "Star Wars", levando o prêmio pelo épico estelar de George Lucas.

Nova Iorquino, 74 anos de idade, Williams estudou na "Julliard School of Music", compondo logo nos primeiros anos de aprendizado, aos 18 anos. Começou sua carreira no cinema ao conseguir dois anos de contrato na Columbia Pictures em 1955, tocando sob a batuta de maestros que hoje ele superou na quantidade de prêmios, como Alfred Newman, Dmitri Tiomkin e Bernard Herrmann. Hoje se tornou um compositor disputadíssimo entre os diretores, possuindo uma filmografia extensa com mais de 80 filmes.

John Williams além de toda competência musical e prêmios, foi um dos poucos maestros que sobreviveram à moda da música pop no cinema. Essa fase, que ganhou status de cult com "Pulp Fiction", tem como expoente o aparecimento do Jazz como fundo musical.

   

Descentralizar as trilhas sonoras originais do espectro erudito talvez reflita justamente aqueles questionamentos a respeito da música no cinema e suas mudanças que são inevitáveis. Mas apesar dos novos estilos musicais, a música erudita está longe de sair de cena (!).

Diferentemente da fama conquistada por Williams, alguns compositores caíram no esquecimento ou nem se quer são reconhecidos como autores de seus temas. Suas músicas são lembradas como "a música do filme..." e não como "a música do compositor...". Esse é o caso do compositor Richard Strauss. Sua música foi usada na abertura de "2001: Uma Odisséia no Espaço" e até hoje é tida como “a música do filme 2001...”. Músicas como essas são difíceis de sair da cabeça, conseqüentemente os filmes também. Para quem nunca prestou atenção nesses detalhes é bom começar a "ouvir filmes".


VELLOSO, Beatriz. A melodia das telas. Revista Época, Rio de Janeiro, nº 299, 09 de fev. de 2004. Pág. 90-91.


SALDANHA, Jorge. John Williams - Ele tem a força. Disponível no site
http://www.scoretrack.net/john.html, acessado em 03.03.06.


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