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ARTIGO

Kubkick, um dos maiores cineastas do século

Por: Aluizio Moreira Filho - aluiziofilho@cinepoetica.com

Na década de 50, François Truffaut introduziu sua "Teoria de Autor" no pensamento cinematográfico. Em essência, ele discrimina a classificação de filmes por gênero e defende o cinema autoral. Dizer se um filme é comédia, drama ou terror pouco importava para Truffaut. O importante era a marca da autoria nas produções cinematográficas, o caráter subjetivo na obra do cineasta. Portanto, as concepções estéticas e a visão de mundo do autor é o que realmente importavam no cinema.

Alfred Hitchcock, Jean-Luc Godard, Pier Paolo Pasolini, Ingmar Bergman. Todos eles possuem traços (ou ao menos um) comuns em suas obras. Stanley Kubrick, no entanto, apesar de ser considerado um cineasta autoral, sua obra se revela bastante eclética. Há uma certa dificuldade na tentativa de estabelecer traços comuns em toda sua filmografia, o que não compromete a alcunha de mestre. Pelo contrário, essa versatilidade de Kubrick é o que diferencia de muitos cineastas-que-fazem-sempre-a-mesma-coisa.

Muitos teóricos apresentam os supostos traços comuns na filmografia do diretor, mas a maioria não passa de elementos que podem ser encontradas em qualquer narrativa. Contudo, a maioria de seus filmes estabelecem duas formas de diálogo com o público. A primeira acontece com o público que assisti o filme esperando uma história ser contada para ele. A apreensão nesse caso é bastante simples, baseada na relação causal entre as imagens que passam na tela. O segundo diálogo, porém, acontece com o público que assisti o filme com olhos críticos e com a capacidade de estabelecer o conteúdo simbólico de seus filmes.

A leitura feita de "Laranja Mecânica" pelo público comum não irá além da história de um jovem desajustado e violento, por exemplo. Um público mais reflexivo, no entanto, perceberá a sutil crítica de Kubrick ao Estado e suas instituições de controle social, como o sistema penitenciário. Essa segunda leitura do filme, por sua vez, não contradiz a primeira. Quando temos possíveis interpretações para uma obra e nenhuma delas é tida como uma verdadeira interpretação, estamos falando de uma obra aberta. Isso refuta imediatamente aquela lógica de que a literatura é uma arte substancialmente aberta enquanto o cinema é uma arte fechada na interpretação de quem a produz.

Kubrick como diretor foi extremamente racional e perfeccionista. A maioria dos cenários de seus filmes são amplos e com poucos objetos em cena. Usa freqüentemente o travilling, inclusive foi um dos primeiros a usá-lo em superfícies não planas sem provocar nenhum tremor na imagem. Kubrick costumava ter um controle total de sua produção. Freqüentemente ele dirigia, escrevia e produzia o filme, tendo participação direta em outras áreas técnicas como a trilha sonora, a direção de arte e a fotografia. Além disso tudo, chegava a checar os cinemas em que seriam exibidos seus filmes. Se o som não tivesse a potência que ele achava necessária, por exemplo, o filme jamais iria para telas desse cinema.


2001, Uma Odisséia no Espaço

No filme "O Grande Golpe" o seu maior feito foi a construção de uma narrativa inovadora para o cinema na época. As cenas eram interligadas e contextualizadas por uma narração onipresente, criando uma crescente tensão dramática difícil de ser encontrada na maioria dos filmes de gângsteres. Mas mesmo nos filmes de narrativas mais simples, Kubrick nos oferece personagens complexos, construídos à luz da psicologia, como em "Barry Lyndon" e "O Iluminado". Este último uma adaptação do livro homônimo de Stephen King.

Toda essa racionalidade nos faz questionar como teria sido o filme "A.I. - Inteligência Artificial" com sua assinatura. O filme que é dirigido por Steven Spielberg era inicialmente um projeto de Kubrick. Portanto, diferenças seria uma constante se o idealizador do projeto o realizasse. Provavelmente Kubrick tornaria "A.I. - Inteligência Artificial" uma experiência bem mais subjetiva, ao contrário do melodrama criado por Spielberg. Haveria mais perguntas do que respostas e o famoso "happy end" que Spielberg não abre mão daria lugar a um desfecho hipnotizador.

Infelizmente o mestre Kubrick já não está entre nós. Nossa herança é sua obra, que ultrapassam a experiência da sala escura e que deixa latente por semanas nas nossas mentes. Portanto, rever seus filmes não é simplesmente assistir novamente uma série de imagens ou sentir as mesmas emoções, é reinterpretar, é redescobrir. Neste mês de Março, completa sete anos do falecimento desse gênio, que nos legou também uma série de projetos inacabados. Esperamos, no entanto, que estes sejam apropriados por diretores mais próximos de sua proposta e que não transformem suas premissas complexas em filmes açucarados, como Spielberg fez com a história do robô David. Difícil é existir alguém nos dias de hoje que substitua sua genialidade.


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